Como encontrar e derrotar o monstro da dificuldade escolar!




Dificuldade escolar é muito comum podendo chegar a afetar 60% de todos os alunos. Todos que passaram pelo ambiente escolar conseguem lembrar de alguém da sala que tinha muita dificuldade naquele ambiente. Porém, ao tentar representar qual a característica que fazia aquele estudante ter dificuldade podemos não chegar a um elemento em comum, dada a ampla variedade de manifestações da dificuldade escolar.


É possível dividir as causas de mau desempenho escolar em dois grupos principais: as dificuldades pedagógicas (problemas de “ensinagem”) e sociais (condições socioculturais desfavoráveis e pouco estimuladoras). E as patologias e transtornos associados: transtornos específicos da aprendizagem (leitura, escrita, matemática); transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH); outros transtornos neuropsiquiátricos, patologias neurológicas e condições médicas.




Gráfico retirado de estudo sobre a percepção de professores de sete escolas públicas de São Paulo (Rev. psicopedag. vol.32 no.97 São Paulo 2015)


Pedagógicas

Sobre as causas pedagógicas existe forte correlação entre “boas escolas” , disponibilidade de recursos e progresso escolar. Também existe evidência a as “más escolas” afetam diretamente as crianças mais vulneráveis.


Sociais

O aspecto social reflete o estímulo e incentivo a que a criança é exposta em casa. Estudos comprovaram que mães com maior instrução escolar tem filhos com maior nível de escolaridade.


Transtorno de Aprendizagem específicos

Pelo DSM o transtornos específicos de aprendizagem é definido como a situação na qual os "resultados do indivíduo em testes padronizados e individualmente administrados de leitura, matemática ou expressão escrita estão substancialmente abaixo do esperado para sua idade, escolarização e nível de inteligência. Os problemas de aprendizagem interferem significativamente no rendimento escolar e nas atividades de vida diária que exigem habilidades de leitura, matemática ou escrita". Para a criança ter diagnóstico de TA, ela deve apresentar nível cognitivo normal, ausência de deficiências sensoriais (déficits auditivos e/ou visuais), ajuste emocional e acesso ao ensino adequado.


Sinais do transtorno da leitura ou dislexia

  • Leitura e escrita, muitas vezes incompreensíveis

  • Dificuldade em identificação de letras. Trocas de letras ou de suas orientações (p/q b/d c/e u/v i/j n/u). Trocas de sons semelhantes (b/p d/t)

  • Dificuldade de aprender a correlação entre letras e sons. Causando inversões de sílabas ou palavras, substituição de palavras por estruturas semelhantes, supressão ou adição de letras ou de sílabas e repetição de sílabas ou palavras

  • Dificuldade em provas de consciência fonológica e imaturidade fonológica e fragmentação incorreta na escrita

  • Confusão nas relações têmporo espaciais, esquema corporal e lateralidade (não reconhece direita e esquerda com 6 anos). Escrita em espelho com 6 ou 7 anos

  • Antecedente familiar de TDAH


Sinais de Transtorno de expressão da escrita

  • Disgrafia que é o traçado de letras ilegível podendo apresentar dificuldade para escrever, mistura de letras maiúsculas/minúsculas, de forma/ cursiva, traçado de letra incompleto, dificuldade visomotora (cópia), visuoespacial. Comum associação com transtorno do desenvolvimento da coordenação

  • Disortografia geralmente acompanha a dislexia. Dificuldades fonológicas ortográficas e de produção de texto


Transtorno de matemática ou discalculia

  • Erro na escrita dos números (em espelho), dificuldade com sinais operacionais, dificuldade em montar a conta e na ordenação e espaçamento dos números

  • Dificuldade para ler números com múltiplos dígitos

  • Dificuldade em somas simples, memória limitada para fatos numéricos básicos


Transtorno do desenvolvimento de coordenação ou dispraxia

É o comprometimento da coordenação motora sem causas neurológicas ou sensoriais identificadas. Pode ser percebido pela dificuldade da criança em realizar atividades do dia a dia como se vestir, dar amarrar o cadarço de sapatos, usar talheres, usar uma tesoura, andar de bicicleta, desenhar, copiar e escrever. Tende a ter uma forte correlação com o TDAH, transtornos de aprendizagem, principalmente da escrita, transtorno opositor desafiante, de conduta, de humor e de ansiedade.


Doenças sistêmicas que podem causar dificuldade escolar.

Essa é uma lista grande de doenças que afetam alguma outra parte do corpo mas que podem apresentar a dificuldade escolar como uma de suas consequência. E é mais um motivo para que as crianças sejam avaliadas por médicos durante a investigação. A lista inclui Desnutrição (nos primeiros anos de vida), anemia ferropriva, deficiência de zinco, hipotireoidismo, infestação por vermes, deficiências sensoriais (déficits visuais e auditivos), doenças crônicas que levam a absenteísmo escolar e/ou problemas emocionais - asma, diabetes mellitus tipo 1, anemia falciforme, neurofibromatose tipo 1, síndrome de imunodeficiência adquirida.


Além de doenças existem fatores relacionados a um pior desempenho escolar: Prematuridade e baixo peso ao nascimento


Apesar de ter uma correlação evidente é bom lembrar que lesões cerebrais também são um importante fator de risco, mesmo que parecem comprometer prioritariamente outras áreas, como as motoras. Isso pode incluir paralisia cerebral (síndrome hipóxico-isquêmica neonatal), AVC, infecções do SNC (Meningites e encefalites), radioterapia cerebral, epilepsia.


Deficiência intelectual

É caracterizado pelo prejuízo cognitivo em várias funções (cognitiva, linguística, motora e social). É confirmado através de testes que quantificam o quoeficiente de inteligência (QI) e pode ser utilizado para classificar em leve (50 a 70) moderado (35 a 50), severo (20 a 35), profundo (menos de 20). São multiplas as causas que levam a esse quadro e em boa parte dos casos não conseguimos definir a causa. Entre elas existem causas genéticas como o Xfrágil e o MECP2 em meninos, doenças metabólicas


Doenças neuropsiquiátricas

TDAH, transtorno do humor bipolar da infância, transtorno opositor desafiante, transtorno de conduta, transtorno de ansiedade, transtrono obcessivo compulsivo, Tourette, autismo, entre outros.


Cabe ao médico na abordagem da dificuldade escolar:

  • orientação de pais e responsáveis sobre a importância da educação na vida de suas crianças, principalmente àquelas provenientes de condições socioculturais desfavoráveis;

  • atenção ao desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM);

  • identificação dos sinais e sintomas precoces dos transtornos associados;

  • descartar causas extrínsecas (socioculturais e pedagógicas) e causas intrínsecas - emocionais, problemas visuais (insuficiência de convergência e acomodação, erros de refração), problemas auditivos (otite média de repetição, alteração do processamento auditivo, entre outros), déficits sensoriais (visuais e auditivos), anemia ferropriva, apneia de sono, hipotireoidismo, entre outros);

  • encaminhar para especialistas quando necessário (otorrinolaringologia, oftalmologia, neurologia, psiquiatria, psicopedagogia, fonoaudiologia, psicologia e terapia ocupacional);

  • orientar que os transtornos são, em sua maioria, condições crônicas que perduram por toda a vida, porém com capacidade de melhora desde que os tratamentos necessários sejam realizados;

  • 7) desmotivar tratamentos alternativos sem evidências científicas;

  • 8) disponibilizar fonte de informação segura e confiável para os responsáveis e as crianças.

Sabe-se que crianças provenientes de famílias esclarecidas, engajadas ao tratamento, têm melhor prognóstico


Tratamento

Assim como na investigação, o tratamento é realizado por uma equipe multiprofissional. As profissões envolvidas são psicologia, fonoaudiologia, terapeuta ocupacional, pedagogo, psicopedagogo, As estratégias podem variar de acordo com as causas das dificuldades escolares, porém alguns princípios se aplicam a quase todas. É papel da escola oferecer um suporte pedagógico e isso pode ser realizada através do reforço em matérias de mais dificuldade, sala de recursos com pedagogo para as dificuldades mais específicas e limitantes.




Gráfico retirado de estudo sobre a percepção de professores de sete escolas públicas de São Paulo (Rev. psicopedag. vol.32 no.97 São Paulo 2015)


Outras medidas:

Para dislexia o tratamento é feito em dois âmbitos: remediação e acomodação. A remediação busca o treino da decodificação, fluência de leitura, aquisição de vocabulário e compreensão. Muitas crianças não atingirão proficiência de leitura, e nesses casos a acomodação será necessária. A acomodação inclui tempo extra para leitura (essencial), uso de computadores e gravadores, evitar questões de múltipla escolha, testes orais e/ou em salas separadas.


"Não existe evidência científica que justifique o tratamento com exercícios oculares, terapia comportamental visual ou uso de filtros ou lentes coloridas. Tais tratamentos não são endossados e não deveriam ser recomendados".


Também é válido ressaltar que para a maioria das condições citadas acima não existe o tratamento medicamentoso, retirando o TDAH e os transtornos neuropsiquiátricos.


Os elementos que favorecem uma boa evolução são uma identificação e o diagnóstico precoce, uma abordagem multidisciplinar, apoio da escola e, principalmente, comprometimento da família com o tratamento e estímulo da criança.


Existem alguns recursos tecnológicos que podem auxiliar os pais no estímulo e incentivo dos pais para os filhos.


Para organização gosto do uso da gamificação. Incentivos virtuais na forma de jogos para que a criança cumpra objetivos. Esses podem incluir tarefas domésticas (como arrumar a própria cama), regras (como horários para dormir ou estudo), desempenho escolar (melhora de notas anteriores ou manutenção de boas notas) ou mesmo atividades mais imediatas como conseguir terminar uma questão. Quando o objetivo é atingido a criança ganha a recompensa.

Podem ser utilizados desde aplicativos como o Habitica até mesmo a coisas bem simples como um quadro na parede para adesivos.






Habitica é uma combinação de gerenciador de tarefas com RPG cujo objetivo é te ajudar a criar hábitos e lembrar de tarefas de forma divertida e agradável. Basicamente, você cria seu próprio avatar e ganha experiência ao completar suas tarefas diárias.


Pode ser que esse tipo de estratégia funcione melhor com adolescentes uma vez que o apicativo foi desenvolvido para que o próprio usuário defina os seu objetivos e marque quando cumprir as missões, em vez de um terceiro (pai ou professor) que provavelmente seria mais adequado para ciranças.









Também existem sites como o Khan Academy que engloba o conceito de gamificação dentro de uma plataforma de conteúdos educacionais que permite que as crianças criem um perfil e procurem conteúdos por ano do ensimo formal ou por assunto. Ele fornece aulas em vídeos e questões para fixação do conteúdo. Cada aula ou exercício é recompensado com ganho de experiencie e evolução do personagem. Pais e professores também podem ter contas e definir conteúdos para as contas das crianças. Abaixo o relato de professores e alunos com essa plataforma.




O Khan Academy pode ser uma ferramente especialmente importante para esse momento de isolamento social imposto pela epidemia do COVID. De uma olhada no vídeo abaixo.





Esse texto foi escrito por Luis Paulo F S Dutra, médico neurologista pediátrico. Para mais informações sobre o autor clique no logo ao lado.





Referências


https://pt.khanacademy.org/

https://habitica.com/

https://novaescola.org.br/conteudo/10843/como-incentivar-a-leitura-atraves-da-gamificacao


FREDERICO NETO, Francisco et al . Dificuldade de aprendizagem no ensino fundamental e médio: a percepção de professores de sete escolas públicas de São Paulo - SP.Rev. psicopedag.,  São Paulo ,  v. 32, n. 97, p. 26-37,   2015 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862015000100004&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  21  jun.  2020.


SIQUEIRA, Cláudia Machado; GURGEL-GIANNETTI, Juliana. Mau desempenho escolar: uma visão atual.Rev. Assoc. Med. Bras.,  São Paulo ,  v. 57, n. 1, p. 78-87,  Feb.  2011 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302011000100021&lng=en&nrm=iso>. access on  21  June  2020.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302011000100021.


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