• Benaia Silva

USO DE TELAS EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Atualizado: há 6 dias



O uso de telas é comum na vida das famílias atualmente, benefícios e malefícios acompanham essa prática. O tempo de tela está se tornando maior e crianças em idades cada vez mais precoces têm acesso a celulares, computadores, tablets e televisões tanto em casa quanto em outros ambientes como escola, restaurantes, carros. O principal objetivo do uso de telas, nesse caso, não é educativo e sim fazer com que a criança fique "quieta".


Nos últimos anos vários pesquisadores por todo mundo têm estudado a influência dessa exposição precoce a telas, sendo que resultados preliminares mostraram que as crianças expostas a maior tempo de tela tiveram atraso de desenvolvimento se comparadas às expostas a menor tempo e o principal questionamento após os estudos iniciais era: O que veio primeiro o atraso de desenvolvimento ou o excesso de tela?

Novos estudos publicados em 2019 sugeriram que o maior tempo de tela aos 24 meses de idade foi associado a pior desempenho em testes de triagem de desenvolvimento realizados aos 36 meses de idade. As crianças analisadas nesses estudos assistiam em média entre 1,6 a 3,6 horas de tela por dia. Outro estudo publicado em 2020 mostrou que nos Estados Unidos as crianças até 5 anos assistem em média 2 horas e 19 minutos de tela por dia e que as crianças que viram menor quantidade de tempo são as que tinham por volta de 5 anos, a explicação dada pelos pesquisadores foi que a redução de tempo de tela coincidiu com a entrada dessas crianças na pré escola e consequentemente menor tempo em casa.


O desenvolvimento infantil é muito acelerado nos primeiros 5 anos de vida e quando crianças pequenas estão assistindo telas isso pode fazê - las perder oportunidade de brincar com outras crianças e desenvolver suas habilidades sociais, além de ficarem sentadas e não terem oportunidade de melhor desenvolvimento motor e de coordenação motora fina e grossa. Análise realizada pela Fundação NHS, da Inglaterra, revelou que as crianças britânicas estão chegando às salas de aula mal preparadas para escrever, cortar com tesoura ou fazer outras atividades que exijam força muscular nos dedos. Pediatras britânicos associaram esse despreparo a falta de atividades tradicionais como colorir, encaixar peças (por ex. lego), montar quebra cabeças.



Quando as crianças veem telas em grande quantidade (ou até mesmo em menor quantidade) pode acontecer uma hiperestimulação seja por desenhos, filmes, jogos ou mesmo aplicativos educativos. Esse estímulo em excesso gera uma saturação dos sentidos pois as crianças estão expostas a luzes coloridas e brilhantes, músicas repetitivas, trocas de cenas, recompensas imediatas (ex. mudar de nível em um aplicativo educativo ou jogo).


A saturação dos sentidos faz com que as crianças busquem de estímulos cada vez maiores, o mundo fora das telas se torna tedioso e surge a agitação, nervosismo e necessidade de procurar novos estímulos gerando inquietação. As consequências são ainda mais prejudiciais pois são crianças e adolescentes que podem ter baixo limiar à frustração, não conseguir esperar, não saber lidar com os sentimentos quando algo lhes é negado ou adiado.


Outro ponto prejudicial da hiperestimulação e excesso de telas é que as crianças e adolescentes não exploram os ambientes, não desenvolvem brincadeiras sem telas, recebem tudo pronto e acabam aprendendo que isso é o "normal". Por não se esforçarem e não buscarem possibilidades fora do mundo tecnológico podem se tornar passivos, sem iniciativa e até mesmo preguiçosos.


Os comportamentos prejudiciais à saúde como sedentarismo ou pouca quantidade de atividade física, dieta pouco variada e não nutritiva, são frequentemente estabelecidos na infância e adolescência e persistem na idade adulta. Logo quanto maior tempo as crianças passam em assistindo tela menor quantidade de atividade física que realizam, outro hábito prejudicial é ver telas durante a alimentação, isso pode induzir a obesidade pois a criança não tem noção da quantidade de que está comendo, além de não valorizar o alimento e reduzir a percepção dos sabores, texturas, cores e outras sensações que os alimentos proporcionam.


Além dos prejuízos citados um estudo realizado em Xangai mostrou também que a exposição excessiva a tela foi associada a redução de bem estar em crianças pré escolares, assim como uma redução da interação entre pais e filhos.


Uso de tela em adolescentes


Entre os adolescentes o tempo elevado de tela foi associado a menor aptidão motora, alterações comportamentais, baixa autoestima e piora da saúde mental. Pesquisa realizada no Brasil mostrou que 78% dos adolescentes assistem pelo menos 2 horas de TV ao dia, esse estudo não contabilizou outros tipos de tela, apenas a televisão. Já um estudo que analisou o tempo excessivo de telas (todos os tipos) por regiões brasileiras mostrou que o tempo de tela nas regiões Sul e Sudeste é ligeiramente maior que na região Nordeste, mas se comparar apenas o tempo de TV, não há diferença significativa entre as regiões. Essa diferença entre as regiões foi atribuída a fatores socioeconômicos e maior acesso dos adolescentes do Sul e Sudeste a outros tipos de telas que não sejam televisão.


É crescente o número de adolescentes que usam mais de duas horas ao dia computador e videogame. Em 2003 nos Estados Unidos 23 % dos adolescentes ficavam mais de duas horas em computador ou videogame ao dia, já em 2013 esse valor saltou para 41%. Estima - se que o tempo de tela atualmente é muito maior, pois não estava contabilizado nesses dados o uso de celulares, que hoje são mais populares. Em estudo realizado no sul do Brasil não houve diferença entre meninos e meninas no tempo que os adolescentes passaram em jogos de videogame e computadores. Já entre entre os adolescentes espanhóis os meninos passaram maior tempo que as meninas em jogos de videogame e computador, principalmente nos finais de semana.


Vício em telas


A superexposição a ambientes digitais, que afeta tanto crianças pequenas (de 0 a 2 anos) quanto adolescentes, desencadeia reações metabólicas negativas e leva a desregulação de neurotransmissores como serotonina e dopamina e, no cérebro em desenvolvimento, esse desbalanço leva ao vício em internet e telas, as alterações são semelhantes às encontradas em "viciados"em drogas e outras substâncias.


O aumento de exposição à ambientes digitais leva uma diminuição de exposição à luz natural (solar) saudável e ao aumento de exposição à luzes artificiais (telas) em horários inadequados, isso gera níveis insuficientes de vitamina D (produzida pela exposição ao sol) e também menor quantidade de melatonina (hormônio responsável por regular o ciclo circadiano e é produzida na ausência de luz). O ciclo ou ritmo circadiano é o nosso relógio biológico, quando há uma desregulação nesse sistema ocorre insônia, sonolência diurna excessiva, outros distúrbios do sono, ansiedade, irritabilidade, função cognitiva prejudicada, obesidade e outras alterações. Abaixo um esquema mostrando as alterações principais decorrentes do uso excessivo de telas.


Consequências do uso excessivo de telas - Adaptado de "Children’s Health in the Digital Age"

Uso racional das telas


Hoje não é possível eliminarmos o uso de telas, elas facilitaram o acesso à informações e a comunicação. É de fundamental importância ter bom senso no uso da tecnologia digital, as telas não devem interferir no tempo que a criança tem contato com sua família. Cabe aos pais e cuidadores proporcionar atividades "offline" de interação com a criança ou adolescente, além de estabelecer limites de tempo, horário máximo de uso, além de regras de uso e áreas da casa livres de tela.


Como cérebro aprende pela repetição e observação de comportamentos, devido a isso e essencial que os pais tenham rotinas de uso saudável da tecnologia para ensinar bons exemplos aos seus filhos. Caso a criança ou adolescente se interesse muito por tecnologia o ideal é proporcionar o uso de ferramentas que estimulem a aquisição de novas habilidades, pois isso pode auxiliar no desenvolvimento, porém o tempo de tela recomendado para cada idade dever sempre ser respeitado.


A Sociedade Brasileira de Pediatria entende que a tecnologia, quando usada de forma adequada e apropriada, pode melhorar a vida das crianças e adolescentes, porém se usada de forma abusiva e sem planejamento pode prejudicar o desenvolvimento e substituir atividades como brincar, interação face a face, reduzir o tempo de qualidade com os familiares, alem de reduzir o tempo de atividade física e não permitir um tempo de inatividade e de ócio criativo.


Recomendações



A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda:

  • Monitorar rigorosamente o tempo de exposição a telas em casa e na escola para não ultrapassar o limite recomendado

  • Procurar oferecer conteúdos de alta qualidade e com finalidade de aprendizagem

  • Pais e professores devem se envolver e estimular tanto a leitura digital mas também a leitura de livros

  • Estabelecer regras domésticas para o uso de telas e garantir que sejam cumpridas

  • Incentivar a prática de atividades físicas e contato com a natureza

  • Promover brincadeiras que não envolvam telas ou tecnologia

A SBP para auxiliar os pais e pediatra lançou o documento "Menos telas, mais saúde" para informar sobre o uso de telas e os problemas decorrentes da intoxicação digital. Esse documento também tem a finalidade de conscientizar sobre os transtornos mentais e as alterações físicas (problemas posturais, musculares, alterações de visão e audição) que o excesso de tela pode provocar. Outros pontos importantes a serem monitorados e prevenidos é o cyberbullying, a exposição precoce à sexualidade e abusos.

O uso da tecnologia está entrincheirado na vida moderna dos indivíduos, entender os benefícios e malefícios do uso de telas, tomar medidas familiares para se envolver com a tecnologia de maneira positiva pode ser fundamental para garantir o sucesso no desenvolvimento das crianças que crescem em uma era digital. Abaixo um quadro com as recomendações do tempo de tela, tempo de sono e de atividade física recomendados na infância e adolescência:



10 dicas para reduzir o tempo de tela em crianças e adolescentes


  1. Deixe as telas grandes (TV, notebooks...) e videogames longe do quarto e em áreas comuns da casa

  2. Retarde ao máximo a hora de dar um celular de presente ao seu filho

  3. Desligue o wifi da casa em determinados horários do dia caso necessite de medidas mais "extremas""

  4. Verifique a política de uso de celulares na escola do seu filho, caso a escola seja permissiva discuta com os outros pais e a escola regras para um melhor uso das tecnologias

  5. Valorize os momentos juntos com o seu filho

  6. Procure fazer todas as refeições juntos e sem o uso de telas

  7. Proponha atividades como pintura, desenho, leitura e teatros

  8. Dê responsabilidades aos seus filhos compatíveis com a idade (ex. alimentar os animais domésticos, regar plantas, arrumar a mesa, arrumar o quarto, guardar calçados, fazer uma receita simples, guardar louças, guardar os próprios brinquedos...)

  9. Faça um calendário e organize o dia ou a semana para inserir gradualmente os hábitos citados acima

  10. Defina regras e procure cumpri - las


Dicas para redução de tempo de tela

Não se culpe se não conseguir fazer tudo isso sempre. Alguns dias serão mais difíceis, reconhecer e conversar sobre isso é uma chance para encontrar o ponto ideal da sua família. Ter você por perto já é uma das melhores lembranças que seu filho vai ter da infância e adolescência.


Esse texto foi escrito por Benaia Silva, médica neurologista pediátrica. Para mais informações sobre a autora clique na imagem abaixo.



Referências Bibliográficas


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https://aprendendocomtiadebora.blogspot.com/2020/05/brincadeiras-em-casa-durante-esse.html



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