• Benaia Silva

Birra infantil: como lidar?



Birras são episódios de comportamentos extremos e por vezes agressivos que acontecem em resposta à frustração ou raiva, são semelhantes a eventos de fúria. Os comportamentos observados são desproporcionais à situação e incluem chorar, ficar mole, gritar, se debater, prender a respiração, jogar objetos, empurrar, morder, dentre outros.

As birras ocorrem, em média, uma a duas vezes ao dia e têm duração aproximada de 3 minutos, mas a maior parte dura entre 30 e 60 segundos, acontecem em maior frequência em crianças com idades entre 18 meses e 5 anos, porém podem começar mais precoce. Observadas em aproximadamente 87% das crianças entre 18 e 24 meses, 91% das de 30 a 36 meses e 59% nas de 42 a 48 meses. 


Após o episódio de birra há completa normalização do humor e do comportamento, a criança não apresenta nenhuma alteração entre os episódios. A frequência, gravidade e duração dos eventos diminuem naturalmente conforme o crescimento da criança e faz parte do comportamento normal na infância sendo igualmente comum em meninos e meninas.


Os principais gatilhos de birras são frustração, fome, doença, fadiga, algumas crianças aprendem que birras são uma maneira eficaz de conseguir o que querem ou evitar o que não querem e as fazem com essa finalidade. As crianças entre 18 e 60 meses ainda não desenvolveram mecanismos para lidar com emoções fortes e têm sentimentos conflitantes de um lado o desejo de independência e do outro a necessidade de atenção dos pais, conforme a criança cresce e aprende a gerenciar suas emoções a frequência das birras diminui.



É importante saber se a dinâmica da família está normal, algumas perguntas devem ser feitas para saber se é apenas uma birra ou um transtorno comportamental, os principais questionamentos a serem respondidos são:

  • O que aconteceu antes da birra?

  • Que horários do dia as birras costumam ocorrer?

  • Quanto tempo dura cada episódio de birra?

  • Como é o comportamento da criança entre os episódios de birra? Normal? Irritada? Agressiva? Agitada?

  • Como a birra se manifesta? A criança agride outras pessoas ou ela mesma? Quebra algum objeto? Perde o fôlego?


Caso as birras ocorram com muita frequência ou em crianças acima dos 5 anos além das perguntas acima outras questões devem ser respondidas:

  • Qual a reação do cuidador a birra?

  • Houve alguma mudança de rotina, estrutura familiar ou conflito?

  • Aconteceu algum evento traumático?

  • A criança teve alguma alteração de sono? Algum comportamento ansioso?

  • Houve regressão do desenvolvimento? Tem enurese (voltou a fazer xixi na cama ou nas roupas após o desfralde)?

  • A criança tem alguma doença?

  • Os episódios de birra estão interferindo na vida da criança?


Quando a criança apresenta características atípicas de birra, alterações de desenvolvimento, humor, sono ou o comportamento interfira na vida e rotina familiar é importante comunicar o pediatra que acompanha para investigar se há ou não a presença de um transtorno de comportamento, caso o pediatra julgue necessário pode encaminhar para um neurologista pediátrico ou psiquiatra da infância e adolescência para completar a investigação e instituir o tratamento adequado.

Em crianças com birras típicas não são necessários exames, a exceção são as birras típicas nas quais ocorrem episódios frequentes de perda de fôlego, nestes casos é necessário comunicar ao pediatra para que, ao examinar a criança, ele procure sinais físicos de anemia como palidez de mucosas, taquicardia e, se julgar necessário, solicitar um hemograma.


Deficiências visuais e auditivas podem gerar frustração e aumentar a ocorrência de birras, se houver suspeita desses déficits devem ser feitos exames oftalmológico e auditivo. Crianças que moram em áreas de alto risco de exposição ao chumbo devem realizar exame para dosar esse elemento no sangue aos 12 meses de idade, pois a neurotoxicidade pelo chumbo pode fazer comportamento agressivo e mimetizar uma birra.



Manejo


É importante lembrar que as birras fazem parte do desenvolvimento saudável da criança, cabe aos pais reconhecer os sinais atípicos de birra e procurar atendimento para essas manifestações.


A prevenção é a melhor maneira de lidar com as birras frequentes, a recomendação é atenuar os gatilhos mais comuns de birras como fome, fadiga, doença. Entretanto existem momentos que não é possível fazer a prevenção do episódio, nesses casos a orientação é minimizar o estresse com estratégias consistentes. Algumas dicas são:

  1. Não se importe com o que outros pensam

  2. Fique calmo e resolva o conflito sem violência, fale em tom de voz neutro

  3. Se for possível ignore a birra

  4. Distraia a criança e se necessário saia com ela do ambiente

  5. Ajude a criança a explicar o que ela está sentindo e como lidar com os sentimentos, por exemplo "sei que você está chateada, mas não é hora de comer doces", "quando estiver triste bata neste tambor e não nas pessoas"

  6. Permita que a criança chore, vivenciar a frustração e tristeza faz parte do processo de desenvolvimento

  7. Não ceda a demandas inapropriadas da criança para que não haja reforço de um comportamento inadequado

  8. Quando necessário colocar a criança em um local seguro e dar um tempo para pensar. A Academia Americana de Pediatria recomenda que a criança seja deixada no "cantinho do pensamento" 1 minuto por cada ano de idade (exemplo: 3 anos deixa 3 minutos), porém os defensores da Disciplina Positiva argumentam que essa prática não é efetiva se for apenas um local para a criança ficar sem fazer nada. Eles propõem que seja feito o "cantinho da pausa positiva", um local seguro com objetos e brinquedos para a criança possa se acalmar e permitir que ela fique lá até que o episódio esteja controlado

  9. Não castigue fisicamente a criança, pois pode aumentar o comportamento de birra em gravidade e duração além de ensinar à criança que é permitido bater quando está zangada

  10. As crianças necessitam de elogios e reforços positivos frequentes, após o episódio de birra demonstre seu amor e acolha a criança

Quando procurar atendimento especializado?


Primeiramente entre em contato com o pediatra que acompanha a criança caso ele indique procure um profissional especializado, porém se a criança não tem um pediatra de referência ou os pais querem procurar direto um profissional especializado os critérios são as birras que duram mais de 25 minutos, agressividade intensa (principalmente autoagressividade), crianças incapazes de se acalmar, alterações de humor entre os episódios.


As principais condições associadas à birras extremas e atípicas são os transtornos disruptivos de controle de impulsos e conduta (como o Transtorno Opositor Desafiante - TOD), Transtorno de Estresse pós Traumático, Transtorno do Espectro Autista, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, déficits visuais e auditivos e distúrbios de aprendizagem. Abaixo uma figura comparativa entre as características de Birra e o Transtorno Opositor Desafiante (TOD):

TOD versus Birra

 Esse texto foi escrito por Benaia Silva, médica neurologista pediátrica. Para mais informações sobre a autora clique na imagem abaixo.




Referências


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