Um pouco sobre o TDAH: diagnóstico, epidemiologia e causas



Você sabe o que é uma criança agitada, que não pára no lugar, corre para todos os lados, faz várias perguntas o tempo todo?


Exatamente, uma criança saudável.


O Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) não é definido por estas características de forma isolada. A maioria das crianças vai apresentar algum grau de hiperatividade e/ou desatenção em seu desenvolvimento. O transtorno só começa a ser caracterizado quando traz prejuízos a criança. Foi necessário então estabelecer um ponto de corte para afirmar o que é normal ou não, de forma similar ao que é feito com o diagnóstico da pressão arterial, todos temos diferentes nível de pressão arterial, alguns um pouco mais elevados e outros mais baixos, porém foi estabelecido que a partir de 130/80 já é considerada uma doença. O ponto de corte que utilizamos é chamado de critérios para a realização do diagnóstico.



Critérios Diagnósticos


Os critérios diagnósticos atualizados são os descritos no DSM V. É necessário para o diagnóstico a presença dos sintomas centrais, item A, caracterizado por pelo menos seis dos 9 itens de desatenção e/ou hiperatividade mantidos por um período mínimo de 6 meses e que impacte de forma negativa atividades sociais e acadêmicas.




Esse impacto deve ser comprovado, critério D, seja por relatórios escolares ou relato dos familiares. Os sintomas, pelo menos alguns, de desatenção e hiperatividade devem estar presentes desde antes de os 12 anos, critério B, e devem estar presentes em no mínimo dois ambientes, por exemplo em casa e na escola, critério C. E por último, esses sintomas não podem ser melhor explicados por outra patologia, critério E.



O TDAH pode ter diferentes apresentações, a depender de qual os sintomas de desatenção ou hiperatividade predominam. Ou se ambos estão presentes.



Caso desejem ver os critérios completos para TDAH do DSM V cliquem no link abaixo.


Com essa explicação é possível perceber que o diagnóstico é bem criterioso. É necessário uma entrevista clínica completa com o paciente e familiares, além da coleta de informações do ambiente escolar.


Para auxílio na realização do diagnóstico foram criados questionários específicos que podem ser respondidos pela própria criança, pais e/ou professores. Dentre eles o Vanderbilt, SNAPS e KRAMP.


Além de identificarmos o TDAH outro passo muito importante que vai afetar diretamente a escolha de tratamento é a pesquisa de comorbidades. Outras doenças ou transtornos que podem estar presentes juntamente ao TDAH. Sabemos que são muitos os transtornos associados ao TDAH, e que muitas vezes esses precisam ser abordados e tratados até mesmo antes do TDAH em si. Abaixo alguns dos mais frequentes associados.




O TDAH é muito comum?

Vários estudos epidemiológicos foram realizados pelo mundo e foi encontrado que aproximadamente 5 em cada 100 crianças apresentem os sintomas de TDAH e fecham critério para a doença. Há um predomínio de meninos 3:1 em relação as meninas. Essa proporção fica de 1:1 nos adultos.



Diferente do que muitos imaginam, o TDAH não é uma doença da atualidade. Estudos retrospectivos históricos tentaram pesquisar sintomas em crianças atendidas nas décadas ateriores e aplicando os critérios recentes conseguiram chegar a mesma média de prevalência de 5% na população pediátrica.



O que causa o TDAH?


Para que seja possível entender a causa desse transtorno se faz necessária uma breve explicação. O nosso cérebro é formado por várias células, a principal delas é o neurônio. Os neurônios se conectam uns aos outros para transmitir informações, o nome que usamos para determinar essas conexões são sinapses. A transmissão em si ocorre através da liberação de substâncias químicas dentro das fendas sinápticas, essas substâncias são chamadas de neurotransmissores. Existem vários tipos diferentes de neurotransmissores, entre eles a dopamina (DA), a norepinefrina (NE), serotonina, glutamato, histamina e acetilcolina.


Estudos comprovaram que aqueles com o TDAH tem um desequilíbrio químico cerebral, principalmente nos circuitos de dopamina e norepinefrina. Isso faz com que a capacidade do cérebro de inibir distrações e impulsos esteja debilitada, como se fosse um defeito no freio de uma bicicleta, e assim pode desencadear a hiperatividade/impulsividade e a desatenção.


Esse desequilíbrio pode acontecer devido a dois fatores: uma tendência genética e a fatores estressantes ambientais.



A herança genética é um fator de risco importante. Estudos com gêmeos demonstraram uma herdabilidade de 74%. Porém não há um teste genético para pesquisa de TDAH fora do ambiente de pesquisa. Isso ocorre por a herança é poligênica, ou seja um conjunto de vários genes pode estar envolvido na origem da doença.


Também sabemos que vários fatores ambientais estão associados ao TDAH, dentre eles a prematuridade, exposição pré-natal ao tabagismo materno, metilmercúrio pelo consumo materno de peixes, exposição ao chumbo e deficiência perinatal de vitamina D. O mecanismo que explica como que esses fatores predispõe ao TDAH é a epigenética. Hoje sabemos que existem uma interação gene-ambiente, esses fatores pré e perinatais alteram a estrutura química do DNA e podem determinar como será o funcionamento desses durante o desenvolvimento da criança.

Podemos comparar o TDAH com a asma. A criança pode ter a tendência genética, mas se não houver os fatores ambientais, provavelmente não vai desenvolver a doença.



Existe alguma alteração nos exames laboratoriais ou de imagem?


Os exames de imagem não são indicados na investigação do TDAH, porém em pesquisas científicas que utilizaram técnicas de estudo volumétrico cerebral encontraram áreas consistentemente reduzidas no TDAH. O que auxilia no estudo dos mecanismos que desencadeiam essas doenças.



Esses estudos também contribuem na compreensão teórica de quais as áreas e circuitos cerebrais são mais afetados no TDAH. Quando relacionamos o conhecimentos das áreas mais afetadas com as áreas de redução volumétrica podemos imaginar que os seguintes circuitos cerebrais são afetados.




E como tratamos o TDAH?


O tratamento farmacológico e não farmacológico do TDAH será apresentado em um próximo artigo aqui no site do Pequenos Neurônios. Acompanhem as nossas publicações pelo Facebook e Instagram ou aqui mesmo pelo site. Se inscreva para receber informações sobre as nossas publicações mais recentes.


Texto escrito por: Luis Paulo Ferreira de Souza Dutra, médico neurologista pediátrico, criador da central de conteúdos Pequenos Neurônios.

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Referências


Além das referências nas imagens vou indicar para aqueles interessados para se aprofundar no assunto apenas um livro, que achei sensacional. Indico não só para familiares e pacientes como também pra os profissionais da área.



Guia para Compreensão e Manejo do TDAH da World Federation of ADHD (Português) Capa comum – 27 Maio 2019

por Luis Augusto Rohde (Autor), Jan K. Buitelaar (Autor), Manfred Gerlach (Autor), Stephen V. Faraone (Autor)





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